
Sobre o azul
revelam-se mágoas
e más caras de espanto
retidas nos traços
de sorrisos imprecisos
Sobre o azul
há dúvidas em rostos
sombríos
dilatados na esperança
de um projecto
em viagem.
Já
Depois de manter caladas as sílabas
Das palavras só pensadas
Já
Depois de chegar quando todos partiam
De partir quando todos chegavam
Já
Depois de ser sábado no domingo de todos
De ser sombra no brilho disforme
Já
Depois de ser lua-cheia no quarto-minguante
De ser preia-mar na maré vazia
Já
Depois de ser ocidente no lado poente
De ser paz na guerra dos outros
Já
Depois
Bem depois...
Senti a vida na morte
Amei bem longe o que é perto
Troquei o azar pela sorte
Fiz a viagem
Parti
Chegarei!...

Se na cidade do Ódio
Eu visse uma casa de Amor
Se na rua da Tristeza
Eu visse uma porta de Alegria
Se nos olhos do Desespero
Eu visse uma lágrima de Esperança
Se no coração do Conflito
Eu visse uma artéria de Paz
Se nos bolsos da Caridade
Eu visse uma nota de Solidariedade
Se no mar da Contradição
Eu visse uma maré de Verdade
Se no País das Promessas
Eu visse razão na Justiça Social
Pelo Natal!
FRANCISCO NAIA (Francisco Manuel Naia Tonicher) nasceu na Estação de Ourique – Gare, concelho de Castro Verde, Baixo Alentejo., tendo sido registado, em 27 de Dezembro, na Conservatória do Registo Civil de Beja, terra da naturalidade dos seus pais . É licenciado em Filologia Germânica e Professor do ensinosecundário, em Almada.
Em l969, após regresso do serviço militar e reingresso na Universidade – Faculdade de Let
ras – reencontra José Afonso e integra-se num grupo de diversos cantores, músicos e poetas, cujas criações e obras - dotadas de um profundo sentimento de protesto contra o regime, contra a guerra colonial e de denúncia da grande injustiça social, então reinante - procuravam divulgar por tudo o que era sítio (destaca, para além do Zeca, o Adriano Correia de Oliveira, Francisco Fanhais, Luís Cília,Denis Cintra, António Pedro Braga, Pedro, Vieira da Silva, Manuel Freire, José Carlos Vasconcelos, Joaquim Pessoa José Fanha, Pedrosa, António Macedo, Mário Viegas, José Jorge Letria, Ernesto César, Samuel , Nuno Filipe, José Manuel Osório, Teresa Paula Brito, Maria Teresa Horta, Pedro Barroso, Fausto, José Barata Moura, Rita Olivais, Rui Mingas, Márinho, Fernando Laranjeira, Mário Piçarra, Carlos Alberto Moniz , Sérgio Godinho; José Mário Branco, Pedro Osório, Jorge Palma, Caldeira Cabral, Fernando Alvim, António Pinheiro da Silva (Tó), etc.)
Ainda em 1969 edita para a RCA, os seguintes trabalhos Canção da solidão ( single – 1970 ); Amigo João (EP – 1970 ); Lá em casa somos três (single – l970); Canto Suão ( EP – 1970 ); Ò moças Façam arquinhos ( single – 1971/72 ), tema muito divulgado e de grande aceitação popular; Porque teimas em voar ( EP – 1972 ) ; Resolvi subir a montanha ( single – 1972 ).
Entretanto, ainda em 1972, assina contrato com a Editora IMAVOX , editora ligada ao Rádio Clube Português, onde grava o seu primeiro L.P, designado por Cantos Livres, Contos Velhos, ( L. P. – 1973 ) e os singles Amigo, meu amigo ( single – l973); Barquinha vai, Barquinha vem ( single – 1974).
Com a Revolução do 25 de Abril, Francisco Naia vê os seus discos serem divulgados pelas estações emissoras, com destaque para "Amigo ,meu amigo", tema que se tornou muito popularizado.
Desde 1975 faz parceria com o músico e compositor João Pimentel, que o acompanha em guitarra clássica.
Já na Editora SASSETI, grava o L.P. "CÁ PRÁ GENTE" ( L.P.- 1979 ) com orquestrações de Pedro Osório e de Jorge Palma, cuja temática é a de homenagear toda uma série de figuras populares que o cantor conheceu ou contactou no seu dia a dia.
O disco , com alguns acidentes de percurso, que atrasaram a sua saída, foi considerado pela imprensa especializada como um dos melhores trabalhos saídos em 1979 e o teledisco respectivo (RTP) – "O chefe" – teve boas referências.
Do L.P. destacaram-se os temas "Neste Campo" , "O Chefe Tonicher", "Tia Inês", "Maria da Picareta" , "Cantilena do Rapaz Solteiro", "A Xaranga do Zaranza" etc.
Divulgado o disco no Canadá, Naia efectuou um período de concertos em Toronto e Montreal, com programas na rádio e na Televisão.
Em 1980 participa no primeiro Festival da Canção de Lisboa, no Castelo de S. Jorge, transmitido em directo pela RTP, com a canção "De Lisboa em Lisboa", com letra da Hélia Correia e música de Afonso Dias. Nesse mesmo ano gravou um single. Ainda na SassetI , "Canção de Lisboa" ( Single – 1980 ).
Em 1984/85 é convidado pelo realizador Artur Ramos para escrever e compor cinco temas para o filme "A Noite e a Madrugada", inspirado no romance de Fernando Namora com o mesmo título.( Filme também editado em vídeo )
Participou numa curta metragem de Augusto Cabrita sobre o rio Tejo. Também Interpretou uma curta metragem para televisão, inspirada no tema "O Chefe" – do seu último disco – filmada na estação da C.P. de Alcantara.
Compõe e escreve para peças de teatro, nomeadamente nas peças "Felizmente há Luar" de Stau Monteiro, com poemas de Joaquim Pessoa, levada à cena pelo TEB –Teatro Ensaio do Barreiro, em estreia nacional; " Zé Pimpão e os sapatos feitos à mão ", de António Ferra, professor, representada nas escolas e na Televisão.
Ainda para a Televisão, com música de "João Pimentel" e de ambos, participou como actor-cantor nas peças de Couto Viana "O Relógio Mágico" e " Era uma vez um Dragão", encenadas pelo Actor Mário Pereira.
Mais recentemente, em l998/99, participou como actor-cantor na peça " Jeremias", de autoria de Luís Vicente, sobre textos de Apuleio, Luciano, Brook, e do próprio actor; com encenação de José Mora Ramos e estreia no Fórum Municipal do Seixal. Seguiu-se tournée nacional, incluindo Açores.
Desenvolve o espectáculo e projecto discográfico "Cantes d’ além Tejo", apresentado nos últimos dias da Expo98, e o Recital de Canto e Guitarra – com João Pimentel – designado por "Cantos da Memória ". Depois o projecto "Em Cantos de Abril". Em projecto :"Primavera a Sul", canções de amor e luta – vivências; segue-se "Alentejo, minh’ afeição", música tradicional cantada por solistas populares alentejanos e"Não deixes de me encantar", temas de amor que poetas amigos convidados guardavam " na gaveta".
Ao longo deste percurso acompanharam Francisco Naia músicos e amigos, com destaque para : Fernando Alvim, Pedro Caldeira Cabral, António Chainho, Rui Cardoso, Tó Pinheiro da Silva, Zé Poppy, Zé Eduardo, Batata ,Velhinho, Gilda, João Carlos, Bartolomeu Dutra , Márinho, Luís Macedo, Rui Paes, Firmino, Jaiminho, Carlos Vargas, Pedro Osório, Jorge Palma, Ed Paes Mamede e os Grupo à Moda Popular, Grupos Açoreano Tanchão e Off Y Sina da música, Paula Goulart, Minela, Rui Curto, João Penedo, Mário Gramaço, Quiné, João Balão, Ceciliu Isfan, Jorge Carreiro, José Carita, Ricardo Fonseca, Gil Pereira, Nuno Faria.
Nos mais recentes trabalhos, nomeadamente no disco "Cantes d’além Tejo" e no espectáculo com o mesmo nome, participam, para além do cantor, João Pimentel (compositor e guitarra acústica) ; Rui Curto ( acordeão ) ; João Penedo ( contrabaixo ) ; Mário Gramaço ( Saxofone, flauta e clarinete ), Quine (percussões)
e dança descalço
em camisa
curvado pró mar
Sentinela da água e do espaço
peixe à espera que falta saltar
O futuro de gente madura
ir à sorte é ir outra vez
Basta água pra tanta secura
Eis a sina de tantos porquês
a esperança que rói
O regresso que falta
neste corpo que dói
essa lua a mirar
é o encher do vazio
pra depressa voltar.
Sentimento
de uma festa
por inventar
Que dão voz
mesmo ao grito
das palavras
na viagem
aos teus sonhos
por sonhar
É possível
beber letras
no teu canto
Com cantigas
para domar
esta saudade
No regresso
dessas margens
do teu tempo
noutras ondas
que buscam
A liberdade
Muito correm
as memórias
no teu corpo
Rompem mágoas
só bebidas
na paixão
mas no cerne
desse barco
que precisas
há um porto
de regresso
ao coração.

Desembarquei aqui
Neste rumor do vai vem
Incerto das ondas.
A minha vida sentou-se
à beira do mar
Com o rosto aberto
e frio no coração.
No leito do teu corpo
Haviam margens a desbravar
E madrugadas
com sede do meu amor.
O teu sonho era a minha praia
a medrar todos os dias
em maré-cheia
onde ficavam restos de ternura
pelo chão
quando o rio sonhava
em desaguar
Descobrir-te
foi um tempo de alegria
com pássaros a nascer
por entre os dedos
a voar na esperança
para te encontrar
Este poema
De espuma e de lendas
levar-me-á
ao romper do teu canto
onde as palavras
têm os pulsos imóveis
com rosas duras nos gestos
e travo a mulheres maduras.
Pela manhã
Partirei
De novo
Nessas ondas
Onde o amor
Serás tu
Certamente!
